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ELE ENSINOU O MUNDO A VOAR E MORREU PENDURADO NUMA GRAVATA NUM HOTEL DO GUARUJÁ

  • Foto do escritor: Guaruja milgrau
    Guaruja milgrau
  • há 1 hora
  • 5 min de leitura

A porta do banheiro precisou ser arrombada. Do lado de fora, no corredor do primeiro andar do hotel mais elegante da praia, os funcionários hesitavam, e foi preciso a ordem seca de um delegado para que a madeira cedesse. Quando a porta abriu, pela claraboia se avistou o corpo magríssimo, um feixe de ossos pendurado numa gravata. O homem que ali estava não era um hóspede comum. Era o homem que ensinou o mundo a voar. E o Brasil, naquele 23 de julho de 1932, decidiu que ninguém jamais saberia a verdade.


O quarto ao lado do sobrinho


O Grande Hotel La Plage, cinco estrelas na Praia das Pitangueiras, era o refúgio da alta sociedade paulistana, que vinha ao Guarujá em busca do cassino e da piscina. No apartamento 152, no primeiro andar, vivia Alberto Santos Dumont, o Pai da Aviação, com 59 anos. No quarto ao lado, o de número 151, dormia Jorge Dumont Villares, o sobrinho que cuidava dele nos últimos meses de vida. Ao fim da manhã do dia 23, depois de caminhar pela praia, o inventor subiu para a suíte e, sem deixar carta nem mensagem, enforcou-se com duas gravatas no cano do chuveiro.


O relato de quem chegou primeiro ao local é arrepiante. O delegado Raimundo de Menezes, enviado de Santos ao Guarujá, contou anos depois, numa reportagem publicada na revista O Cruzeiro em 1974, que o inventor se sentia culpado pela invenção do avião, que naquele momento servia para bombardear os próprios patrícios. “Persuadido de que era o culpado pela invenção do avião, que estava servindo para bombardear os seus patrícios, disse por várias vezes a Edu Chaves, com quem se encontrava alojado no hotel, que se sentia angustiado por isso. Aproveitando um instante de descuido realizou o seu intento


A mentira que virou atestado


O que aconteceu depois é o que transforma essa história em mistério. Como Santos Dumont era uma glória nacional, a família pediu que o corpo fosse entregue sem maiores formalidades. Não houve inquérito policial. E o médico legista Roberto Catunda assinou o atestado de óbito dando como causa da morte colapso cardíaco. A mentira foi registrada no Cartório Civil do Guarujá, no termo 319, lavrado pelo gerente do hotel, Ângelo Esmolari. Os jornais do dia seguinte anunciaram morte natural. O herói não podia ter tirado a própria vida.


A omissão tinha um peso que hoje parece distante, mas na época era decisivo. A Igreja Católica seguia o Código de Direito Canônico de 1917, que privava de sepultura eclesiástica quem se suicidava deliberadamente. Para a mentalidade daquele tempo, o suicídio era um escândalo. E assim, por décadas, o Brasil acreditou que o Pai da Aviação morrera do coração


O avião que o fazia levantar


Quem conviveu com Santos Dumont no Guarujá nos últimos dias contou, muito tempo depois, como era a rotina do inventor. Ele passava horas sentado no saguão do hotel, sem falar com ninguém. O sobrinho lia para ele os jornais e evitava que as pessoas se aproximassem. Uma das poucas atividades era caminhar pela praia. Um antigo porteiro do hotel lembrou de um detalhe que corta o coração: quando passava um avião, Santos Dumont levantava-se da poltrona, saía à porta do hotel e ficava olhando, com os braços para trás. Daí a pouco voltava ao saguão, sem comentar nada com ninguém. E logo subia para o quarto.


A Revolução Constitucionalista de 1932 tinha começado em 9 de julho, duas semanas antes da morte. Nove dias antes de se enforcar, Santos Dumont fez sua última manifestação pública, um manifesto apelando à união e à ordem constitucional. O desgosto pelo uso de suas invenções na guerra, somado à depressão e à esclerose múltipla, consumiu o homem que um dia encantou Paris.


A última foto e o passeio de charrete


A historiadora Mônica Damasceno, autora do livro “Pérola ao Sol”, reconstruiu as últimas horas do inventor. Pela manhã, ele teria feito um passeio de charrete até a Ilha do Pombeva, na Praia das Pitangueiras, ilha que, com a maré baixa, às vezes deixa de ser totalmente cercada pelo mar. O charreteiro que o levou, Antônio Mendes Jr., teria declarado que, de bom humor, Santos Dumont lhe deu uma gorjeta alta e, a seguir, entrou no quarto para se aprontar para o almoço. Diante da demora, os funcionários foram chamá-lo. Encontraram-no morto.


Na última foto conhecida do inventor, ele aparece ao lado do sobrinho Jorge e de João Fonseca, em cuja companhia bebia cerveja. A imagem não parece condizer com a de alguém prestes a dar cabo da própria vida. E é exatamente essa contradição que alimenta o mistério até hoje. Havia quem dissesse que ele estava deprimido com o uso dos aviões na guerra. Outros especulavam que a travessia do Atlântico de Charles Lindbergh ofuscava sua fama, e que Santos Dumont, solteiro, se sentia só e esquecido.


O corpo sem coração


Depois da morte, o corpo do inventor foi levado do Guarujá para São Paulo no carro fúnebre, um Chevrolet Ramona preto, fabricado em 1929, que hoje está restaurado e em exposição na esquina das avenidas Leomil e Puglisi, na cidade. Na capital, o corpo ficou seis meses na cripta da Catedral da Sé, de julho a dezembro de 1932, até ser trasladado para o Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro, no jazigo decorado por ele mesmo com uma réplica do Ícaro de Saint-Cloud.


Mas havia um segredo que a população não sabia. O corpo foi enterrado sem o coração. O órgão havia sido retirado um dia depois da morte, em 24 de julho, pelo médico austríaco Walter Haberfeld, professor de Anatomia Patológica da Faculdade de Medicina de São Paulo. O coração só reapareceu 12 anos depois, em 24 de outubro de 1944. Hoje, está em exposição no Museu Aeroespacial, no Rio de Janeiro, sustentado por uma escultura do Ícaro.


A trégua que ele nunca viu


No dia 25 de julho de 1932, dois dias depois da morte, o general Goes Monteiro, comandante das tropas legalistas, proclamou uma trégua de 24 horas em homenagem à memória do imortal pioneiro da aviação. As unidades aéreas deixariam de bombardear as posições inimigas naquele dia. Uma homenagem que o inventor, que tanto sofreu ao ver suas criações usadas na guerra, não chegou a ver.


A lição que permanece


Hoje, quem caminha pela Praia das Pitangueiras e passa pelo Grande Hotel La Plage talvez não imagine que ali, num quarto do primeiro andar, terminou a vida do homem que ensinou o mundo a voar. O atestado de óbito, por anos exposto na cidade vizinha, seguia dizendo colapso cardíaco. Mas a verdade, como o coração do inventor, acabou reaparecendo.


Fonte: DiáriodoLitoral


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